5 de jul. de 2009

Cê ta pensando que eu sou Lóki bicho?

Domingo passado fui assistir, no Santander Cultural, o documentário do Canal Brasil sobre a Vida de Arnaldo Baptista, fundador dos Mutantes. Na verdade confesso que conheço pouco do grupo - e não demorou muito para eu ter certeza de que devo conhecer mais. Logo!

A história do Arnaldo é interessantíssima e me fez pensar em várias coisas. Em primeiro lugar, certo que o cara era/é um gênio musical! Ele criou músicas que mesclavam a MPB e o rock-com-apenas-três-notas que predominava na época. Aos 20 anos, líder dos Mutantes (com o irmão Sérgio Dias e a Rita Lee), foi um dos principais responsáveis pelo surgimento do movimento tropicalista, ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé. Mas, apesar de toda genialidade, o cara não resistiu às drogas (principalmente LSD). Além disso, a vida pessoal foi complicadíssima, culminando com diversas internações em hospícios e uma tentativa de suicídio. Aí eu me pergunto: será que é inerente à condição de genialidade uma certa dificuldade de lidar com as coisas diárias e reais? Eu fico pensando em outros gênios e também me vem à mente vidas caóticas. Além disso, será que o cara era louco mesmo ou a gente que ainda não é/era capaz de entendê-lo? (será que todos que estão no hospício são loucos de verdade?) E mais, o quão diferente teria sido a vida do Arnaldo se não houvessem as drogas no caminho?

Fiquei imaginando, também, a pressão que um cara desses - gênio - não deve ter para continuar compondo coisas maravilhosas, e ao mesmo tempo continuar se divertido em fazer música, continuar fazendo diversos shows e sempre entreter o público, etc. É... Ser gênio deve ser mesmo uma vida fácil... Ou feliz. Se bem que deve ter quem saiba lidar com essa pressão, não? No momento não me ocorre ninguém... Mas tem que ter.

Outra coisa que chama a atenção são os dois amores da vida dele. O primeiro, pela Rita Lee. Parece uma coisa tão inocente, bonita. Seria um típico primeiro amor? E também parece claro que o declínio dos Mutantes está profundamente relacionado ao declínio do relacionamento entre os dois. Eles se divorciam e ela deixa o grupo. Alega que estava sendo escanteanda nas composições musicais. Eles negam, dizem que foi uma decisão dela. É engraçado que o documentário começou a ser feito em 2004 e só foi terminado em 2008. Durante todo esse tempo foram gravados depoimentos de diversos artistas: Tom Zé, Lobão, Liminha, Lucinha Barbosa (mulher de Arnaldo) e Sean Lennon (filho do ex-beatle e fã dos Mutantes). Mas a Rita Lee não quis aparecer. Limitou-se a conceder o direito de uso da sua imagem. Da mesma forma, quando os Mutantes se reuniram novamente em 2006, Rita Lee não topa participar e entra a Zelia Duncan em seu lugar. A pergunta que fica é: o que de tão grave aconteceu, para justificar o silêncio da Rita? A gente passou horas criando teorias, mas não conseguimos chegar em nada convincente...

Depois do "acidente", no qual o Arnaldo se joga do quarto andar de um hospital, como ele próprio diz, "acordou nos braços da Lucinha". Ela já conhecia anteriormente o músico e se comoveu com a situação, estando presente nos quatro meses em que ele permaneceu em coma e em toda a recuperação. O documentário passa a idéia de que ela resolveu viver a vida para ajudar o Arnaldo. Dedicação total. Ela ajuda ele o tempo todo, vai junto até a subida do palco e recebe ele depois dos shows. Passa até uma sensação de obsessão. Por outro lado, se diz feliz. Assim como ele. Será que é saudável um relacionamento onde ambos se dizem felizes pelo simples fato de existir a felicidade? Mas não é isso tudo o que buscamos, afinal de contas? Saí do filme achando que não. Continuo achando que duas laranjas que resolvem ficar juntas é muito mais saudável do que meias laranjas. Ainda que sejam duas meias laranjas aparentemente felizes...

Bom, não preciso dizer que adorei o documentário, ?! E a trilha sonora, como não poderia deixar de ser, é fantástica. Recomendo a todos!


4 comentários:

Lola Grangeiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lola Grangeiro disse...

Essa história de gênio/louco é algo que me facina ha horas!
Claro que nem todo louco é gênio, mas seria todo gênio um pouco louco?
Primeiro eu tava convencida que sim, todo gênio tinha algum desequilíbrio que o ajudava a ter uma visão diferenciada de mundo. Isso possibilitava a ele criar coisas completamente inusitadas e revolucionarias.
Depois fiquei pensando melhor e, acho que não. Na minha opinião, o problema é que estamos muito dependentes da nossa cultura/sociedade, e é muito difícil romper esse laço. Dai o cara usa drogas pra conseguir se desligar.
O problema é que, com essa atitude, ele ta polarizando as coisas... Acho que esse é um dos motivos pelo qual as histórias dos gênios e revolucionários normalmente tem final trágico.
A gente não precisa ficar locão pra ser gênio, só que o outro caminho é muito mais difícil....

Mari disse...

Putz! Fiz um mega comentário e o blogger me sacaneou! :(
Retomando... Não é meio triste pensar que as drogas serviriam de trampolim para a genialidade?
Quando eu escrevi o post, tava pensando que de repente o cara já era gênio e, logo, dissociado dos padrões sociais. E que, assim, as drogas serviriam como uma espécie de alívio momentâneo para o sentimento de não se enquadrar! hehehe
Mas faz sentido pensar que o cara já era bom antes, mas que as drogas ajudam a dissociar ainda mais os padrões sociais e, com isso, inovar. E que isso agrava a situação dessas pessoas de not-fit-in.
Será que os músicos compõem melhor sóbrios ou chapados?

Anônimo disse...

Hm... pois é... eu tenho essas dúvidas também. Talvez não só drogas, mas também o álcool (aqueles gênios do blues e do jazz eram, na maioria, mto bebuns). Talvez essas substâncias ajudem a lidar com o Superego e permitam a esses caras livrarem-se das amarras do "certo" e "errado" e inovarem na música, artes, etc.

Claro, detona eles...